Quando o horror excede as palavras
“As palavras não dão conta do horror.”
A linguagem, embora poderosa, encontra fronteiras quando se aproxima de certas experiências extremas. Há horrores que não se deixam capturar pelo alfabeto. A boca se abre, mas o som morre antes de nascer. O que acontece na Palestina não cabe na gramática, nem na ordem das frases. Tudo é pesado como pedra e cortante como vidro.
Quando dizemos que as palavras não dão conta do horror, não é apenas uma constatação linguística: é também um testemunho ético. Ao reconhecer que não conseguimos expressar o que vimos ou soubemos, admitimos que algo rompeu as bordas da experiência humana. Georges Didi-Huberman escreve sobre essa tensão da imagem e da palavra que não são suficientes, mas ainda assim precisamos delas para que a memória não seja apagada. O testemunho, então, é sempre imperfeito, mas é também um ato de resistência contra o esquecimento.
Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, sabia dessa fronteira. Em É isto um homem?, ele não escreve como quem pretende abarcar o horror, mas como quem tenta, palavra por palavra, manter viva a chama de um testemunho. Ele confessa que o que narra é apenas uma parte – que muito do que viu é intraduzível. E, ainda assim, escreve. Porque, mesmo incompletas, as palavras são o que resta contra o apagamento da memória.
No trauma, o horror não é apenas lembrado, ele é revivido. A linguagem falha porque o cérebro não organiza o evento como uma narrativa linear. É fragmento, é sensação, é corpo em alerta. As palavras tentam, mas tropeçam. E ainda assim, para cicatrizar, precisamos tentar nomear. Cada tentativa é uma costura no tecido rasgado da experiência.

Rosa Montero traduz essa experiência em palavras precisas: “A verdadeira dor é indizível. […] Quando a dor cai sobre você sem paliativos, a primeira coisa que ela lhe arranca é a palavra.” (Montero, 2019, p.17). Sua frase corta como um silêncio, iluminando a ideia de que, diante de sofrimentos profundos, até a capacidade de nomear desaparece, e é justamente aí que começa a luta contra o apagamento.
Didi-Huberman recusa tanto o silêncio absoluto quanto a pretensão de dizer tudo. Há uma ética em trabalhar com fragmentos: não transformar o horror em espetáculo totalizante, mas deixar espaço para a ausência, para aquilo que não se pode mostrar nem dizer. As imagens e as palavras falham, mas é nesse fracasso que reside sua verdade.
O horror, portanto, não se anula pela falta de palavras; ele se intensifica. E talvez seja exatamente nesse intervalo – entre a urgência de testemunhar e a impossibilidade de abarcar – que a memória se mantém viva. O testemunho não é uma reconstrução perfeita, mas um compromisso ético: falar apesar da insuficiência, ouvir apesar do desconforto.
Porque o risco maior não é a imperfeição da linguagem. O risco maior é o silêncio que apaga.
Rima awada Zahra é libanesa brasileira, psicóloga, escritora, e coordenadora da pós-graduação do curso de Psicologia e Migração da PUC MG. Organizou e traduziu o livro Sumud em tempos de genocídio da psiquiatra palestina Drª Samah Jabr e traduziu os Diários de Gaza, ambos pela editora Tabla.
Referências
DIDI-HUBERMAN, Georges. Images malgré tout. Paris: Minuit, 2003.
LEVI, Primo. É isto um homem? São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
MONTERO, Rosa. A ridícula ideia de nunca mais te ver. Tradução de Mariana Sanchez. São Paulo: Todavia, 2019. 208 p. ISBN 978-85-88808-84-3.

